E aconteceu pouco depois ir ele a
cidade chamada Naim, e com ele iam muitos dos seus discípulos, e uma grande
multidão.
E quando chegou perto da porta da
cidade, eis que levavam um defunto, filho único de sua mãe, que era viúva; e
com ela ia uma grande multidão da cidade.
E vendo-a, o Senhor moveu-se de
íntima compaixão por ela, e disse-lhe: Não chores. (Lucas 7: 11 a 13)
Prezado amigo, ainda mesmo que um
esquife de um jovem seja seguido por centenas de mulheres chorosas, não será
difícil destacar entre elas a mãe do morto, pela estampa de sofrimento que
haverá em sua face, E se nós, homens comuns, facilmente a reconhecemos, quanto
mais o Senhor Jesus Cristo, que, sobre ser homem, é o Divino Filho de Deus, o
perfeito conhecedor dos sofrimentos mais secretos do coração. Portanto, se tu é
um sofredor, o Senhor te conhece, ainda mesmo que mores muito distante, nalgum
lugar quase inacessível, o Senhor Jesus Cristo conhece a tua dor, a extensão
dela, a intensidade dela, a sua origem e o mais que lhe pertence, consoante o
hino que diz:
Eu sei que Deus é
sabedor
do meu sofrer da
minha dor;
mas sei também que o
meu penar
em gozo pode
transformar.”
Foi assim que, ao ver Jesus o
cortejo fúnebre do filho único da viúva de Naim, aproximou-se da mãe sofredora,
dirigindo-lhe estas palavras: “NÃO CHORES!” E havendo dito isto, fez parar os
que conduziam o esquife, e falou ao defunto, dizendo-lhe: “Moço, eu te mando,
levanta-te”. Aquele que havia estado morto, sentou-se e começou a falar e Jesus
o entregou à sua mãe.
NÃO CHORES! Fosse minha a expressão, meu amigo, nada mais representaria do que uma das inúmeras fórmulas frias e ocas com que, tantas vezes, tentamos consolar os sofredores que nos cercam; mas esta palavra não é minha, mas do Filho de Deus a quem o profeta Isaías chamou “o servo sofredor de Jeová”, o “homem experimentado em enfermidades” (Isaías 53.3), portanto, aquele que é capaz de entender cada sofrimento e ajudar os sofredores. Por isto, a nossa oração hoje, é que, servindo-se desta mensagem, o divino Jesus leve a algum coração angustiado o refrigério que levou ao da viúva de Naim, quando lhe disse: “NÃO CHORES!” Convido, pois os meus amigos a considerarem as duas principais razões porque seria de todo recomendável que eles deixassem agora de chorar.
A primeira razão será esta: Porque se tu não parares de chorar não poderá ouvir a voz do teu Salvador! A tua dor criou esse alheamento a tudo que está manifestando. A tua dor fez minguar o teu universo, a tal ponto que tu te julgas, em sofrimento e em abandono, o único ser na terra. Embora tantos chorem ao redor de ti, tu só ouves a dolente canção dos teus próprios soluços. Jesus, para tua consolação, quer dizer-te alguma coisa talvez muito íntima, que só tu deves ouvir, mas como o poderá, se não tens ouvido senão para os teus próprios gemidos? Portanto, se queres ouvir a voz consoladora do teu Salvador. NÃO CHORES! Mas, afinal que quererá Ele dizer-te?
É possível, talvez, que antes da
tua dor, tivesses noção falsa a respeito da tua posição como crente em Cristo.
Pensavas que, por haveres sido adotado à família de Deus, mediante a tua fé em
Jesus, estarias inteiramente e, para sempre, imunizado a toda espécie de
sofrimento e que a tua vida havia de correr sempre, serena como um rio.
Pensavas também que não somente tu, mas todo o teu lar, estava igualmente imune
às influências do sofrimento. Entretanto, não apenas a dor, mas a dor revestida
de sua maior intensidade e estranheza, bateu à tua porta e fez a sua obra
letal. Agora os alicerces da tua confiança na Palavra de Deus parecem estar
abalados e em tua aflição perguntas a tua própria alma: “Como pode ser isto?
Como pode Deus permitir que um seu filho fiel experimente tanta dor?” E choras
com tanta força que não podes ouvir a voz do teu consolador que te vem explicar
o sentido da tua condição, dizendo: “Filho, eu nunca ensinei que o seres tu
feito filho de Deus, significava imunidade ao sofrimento, pois declarei certa
vez aos meus discípulos: “No mundo tereis aflição...” Por isso mesmo, eu nunca
supliquei ao Pai que te livrasse dos sofrimentos, mas que te guardasse do mal,
isto é, da tentação do maligno. Portanto, não estranhes o fel dessa
experiência, nem digas em teu coração: “O meu caminho está encoberto a Jeová, e
a minha justiça passa desapercebida ao meu Deus” (Isaías 40.7).
Lembra-te de que nenhum
sofrimento altera a relação entre o Pai e qualquer dos seus filhos na terra. A
mãe pode esquecer-se do seu filhinho de peito, mas Deus não se esquece de
nenhum dos seus filhos, porque tem gravado os seus nomes na palma das mãos
(Isaías 49.15). Portanto, nada os pode separar do seu amor: Nem a tribulação,
nem a angústia, nem a perseguição, nem a fome, nem o perigo, nem a espada, nem
a morte. Se choras, pois, pensando que o teu sofrimento veio porque Deus te aja
abandonado, conserta o teu pensamento e enxuga as tuas lágrimas.
É possível também, amigo que
sofres, que o divino Senhor te queira dizer alguma coisa a respeito do sentido
providencial do teu sofrimento, e tu não o estás permitindo com o teu
incessante chorar. Não chores, pois, e escuta o discurso consolador do teu
Salvador:
"Filho", poderá ele dizer-te, "Eu
sou o Deus de Marta e Maria que me glorifiquei no sofrimento delas, quando o
seu irmão Lázaro enfermou e morreu. Deves lembrar-te do que lhes disse: “Esta
enfermidade não é para a morte, mas para a glória de Deus, para que o filho do
homem seja por ela glorificado” (João 11.4). Portanto, se o teu leito de
sofrimento é para glória do teu Senhor, por que choras? Se a morte que
arrebatou o teu ente querido é para a glória, por que choras? Quando a pátria
exige o teu filho, não o dás? Quando o teu filho, para livrá-la dos seus
inimigos, dá por ela sua própria vida, não te sentes glorificado com isso? Por que choras tão incessantemente então, se a
morte do teu querido serve para a glória de Deus?
É possível ainda, amigo, que o
teu Salvador tenha permitido que fosse ferido o teu coração a fim de poder ensinar-te preciosa lição da
humanidade. A tua dor é mensageira do céu. Ela veio humilhar o teu espírito
exaltado, a fim de poderes ser grande no reino dos céus. Tu te supunhas,
talvez, separado de todos, e o melhor de todos os homens. Mas a dor que te veio
foi enviada para destruir o mito da tua
superioridade e revelar que o teu lar é como todos os lares, sujeito às mesmas
aflições. A dor que te surpreendeu, veio para te achar no deserto do teu
orgulho e trazer-te à praça pública da humilhação em que os teus olhos
umedecidos com gotas do sofrimento comum aos homens, viram que os outros
sofredores são teus irmãos e teu verdadeiro privilégio não consiste em seres
separado, mas unido a eles.
Além disso, em teu sofrimento, tu sentes a tua fraqueza, e podes depender mais de teu Salvador. Tu já o conheces, é verdade, mas se não fosse essa tua dor, tu nunca saberias quão rica é a sua graça, e quão valiosa a promessa que nos fez quando disse: “Vinde a mim e eu vos aliviarei, vós todos os que andais cansados e atribulados”. Por isso, para teu treinamento permitiu Ele isso, a fim de que a tua fé aumentasse, o teu amor a ele se tornasse mais firme e a tua obediência a Ele fosse mais completa. Além disso, pelo teu sofrimento, tu aprendeste que este mundo não é o teu lar; que a tua pátria é além, para onde já foram muitos daqueles a quem tanto amavas na terra.
Qual será agora, a segunda razão
que tenho para dizer-te “NÃO CHORES”? Dir-te-ei NÃO CHORES, porque, do
contrário, não poderás ver o que o teu Salvador pretende realizar em ti e por
meio de ti, e em outrem por tua causa. Se não cessares de chorar, o teu choro
se transformará em teu maior inimigo, pois se Deus analisar as tuas lágrimas
ele há de encontrar na composição delas os perigosos ingredientes da vaidade,
da rebelião e da incredulidade; e tu bem sabes que Deus não pode usar pessoas
tomadas por essas faltas para cumprirem as obras preparadas por Ele antes da
fundação do mundo, para que andássemos
nelas.
Primeiramente, se deixares de
chorar, Ele poderá fazer alguma obra tão grande em teu próprio coração que tu
mesmo ficarás pasmado. Tu sabes que a boca fala de que o coração está cheio. É
muito possível que a tua palavra tenha sido até agora fria, destituída de força
e calor. A tua dor veio para retórica formal
da tua pregação, na eloquência fervorosa de uma testemunha real do
evangelho. Tu falavas como um anjo aos homens; mas agora falarás como um homem
aos homens. Tu falavas daquilo que havias ouvido, mas passarás a falar das
coisas que tens visto e que as tuas mãos apalparam a respeito do Verbo da Vida.
O Senhor, pela tua dor, está
preparando em ti mais um consolador para este mundo de tanto sofrimento. Assim, como o apóstolo Paulo,
poderás dizer: Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de
misericórdias e Deus de todo o conforto,
que nos conforta em toda a nossa tribulação para podermos confortar aqueles que
se acham em qualquer tribulação... (2 Cor. 1. 3,4).
É possível também que o Senhor te
esteja dizendo: “NÃO CHORES”, para que sejas nas suas mãos como barro nas
mãos do oleiro e ele te possa comunicar
qual é o verdadeiro sentido da tua vocação neste mundo. A tua dor pode ser a
porta pela qual ele fará ir ao lugar onde deves cumprir a missão para que foste
chamado. Pela tua dor Ele te faz sentir
as dores do mundo, e como são grandes, como são prolongadas, como são variadas,
como são universais, como precisam de urgente simpatia! Deus deseja que tu o
ajudes a levar um pouco essa cruz da humanidade sofredora e por isso permitiu a
tua dor para aperfeiçoar o teu coração.
Amigo - “NÃO CHORES!” Descansa em teu Salvador. Pergunta-lhe que é que Ele te quer dizer com essas permissões tão espantosas ao teu coração. Faze te teu leito de sofredor um púlpito de consolação para os que se acercarem de ti. Tira proveito da tua dor; fá-la um capital que rendas juros para toda a eternidade e que ela sirva para te aproximar mais e mais de teu Deus. NÃO CHORES- querido amigo. Enxuga tuas lágrimas- Descansa tua cabeça cansada e triste nos braços amigos de teu Salvador.
NÃO CHORES - descansa teu coração
atribulado e cheio de mágoa em nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
NÃO CHORES! Que Deus te abençoe .
Amém.
(Mensagem adaptada por Jair
Pereira Ramalho e publicada em homenagem ao saudoso Pastor José de Miranda
Pinto com o devido consentimento da família)

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