terça-feira, 2 de setembro de 2014

BOUGAINVILLE - Mário Celso Rodrigues


Já faz um tempo...  Um pouco mais do meio século, Deus deu-me a graça e, então alcancei, não sei a quantos mais chegarei. "...Um dia eu fui menino, o mundo pequenino que eu via era somente um mundo de menino..." Saudoso e amigo poeta assim escreveu. Não muito tarde tomei noção das coisas da vida e comecei a compreender melhor, as lutas de meu pai, as economias de minha mãe na administração do lar... No hospital do I.A.P.C, nunca havia vaga para me internar, precisava de uma cirurgia - retirar as amígdalas.

 Algumas madrugadas eu ia ao SAPS guardar o lugar na fila para que minha mãe, com as economias, e o apertado salário de meu pai fosse comprar alimentos para nos sustentar... Faltava açúcar... Gás, faltava feijão... Tantas outras coisas faltavam, mas não faltava amor; ainda me emociono quando lembro dos momentos de afeto de meu pai e minha mãe, com muita sabedoria, eu e meu irmão éramos inclusos nestes doces momentos e , sempre após o jantar, tínhamos o culto doméstico... Doces momentos, cantávamos hinos do Cantor Cristão, minha mãe lia o texto bíblico – meu pai não dominava a arte de juntar as letras, meu irmão, menor que eu, tentava se esquivar e não muito tempo depois já ressonava... Saudades da voz de minha mãe fazendo a reflexão do texto lido, meu pai... Sim meu pai, as lágrimas querem brotar de meus olhos pelo simples fato da recordação... Seu tom de voz, baixo... tenor... barítono... Só me lembro que ele nunca terminava de cantar todo o hino, no entanto, o jardim de minha casa era magnífico e todos os fins de semana, lá estava meu amado pai distribuindo mudas de Azáleas... Podando os caramanchões de “Broguevil” que na realidade tinha o lindo nome francês de Bougainville, ou, trazendo para o nosso idioma, Primavera, esse é o nome das lindas flores vermelhas que adornavam o jardim - Azáleas e Primaveras - meninas dos olhos de meu querido e saudoso pai. Momentos de uma vida infante coroada de saudades e que hoje tenta entender o valor que é dado a coisas supérfluas que nenhum bem agrega ao dom maior que Deus nos deu – A Vida.

Quantos um dia poderão dizer que sentem saudades de sua infância... “... Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele...” Provérbios 22: 6. Pois até das palmadas que levei de meu pai e de minha mãe, sinto saudades... Eles entenderam as sábias palavras de Salomão e por esta razão, ainda hoje, almejando o centenário de minha vida, me sinto, realizado, feliz e sempre saudoso da minha infância...

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